sábado, 16 de janeiro de 2010

Munique

Depois de um bom tempo sem postar, explicado pelo fato de eu ter voltado para a França e ter encontrado quatro trabalhos para fazer em duas semanas e quatro provas na terceira semana (que, diga-se de passagem, é a semana que vem), volto com os posts atrasados: eis o décimo primeiro. No fim de semana de 14 e 15 de novembro, aproveitando que era logo depois das provas (como tem prova aqui, né, teve prova aquela época, tem prova agora...), fui viajar a Munique, onde o Fábio mora. Apesar do tempo não ter ajudado muito, a viajem foi bem legal; ei-la:

1. Odisséia para pegar o trem
Dica: não confie na RATP, a empresa de transportes de Paris. Minha aula acabava às 17h45 e meu trem para Munique partia da Gare de l'Est às 19h47. Segundo o planejamento que eu fiz com a ajuda do site da RATP, eu poderia passar em casa, pegar minha mala com tranqüilidade, verificar se não tinha esquecido nada e partir tranqüilamente, pra chegar na estação com 20 minutos de antecedência. Tranqüilíssimo, né? Maaaaaaas é a RATP. Saí de casa no horário certo e peguei o trem pra Paris no horário plajenado. Mas o trem parava em toooooooooooooodas as estações até Paris, o que aumenta em 8 o número de estações em que ele pára. Até aí, tudo bem, o site da RATP devia prever isso e eu iria chegar no horário, talvez uns 5 minutos depois, mas ainda 15 minutos antes do trem partir. E aí o trem começou a lotar, e parar três vezes mais que o previsto em cada estação. A Gare du Nord, onde eu deveria pegar o metrô para a Gare de l'Est, é a última estação de Paris. Entre duas estações, o trem parava no meio do nada, e ficava lá; dava um toquinho para a frente e parava de novo. A cada microssegundo, eu olhava no relógio 20 vezes, e tirava o mapa de metrô de Paris do bolso pra ver se não tinha uma rota que chegaria mais rápido na Gare de l'Est, mas nada, o jeito era agüentar até a Gare du Nord... e agüentei. Cheguei lá faltando uns 8 minutos pro trem partir, e eu ainda tinha que pegar um metrô pra Gare de l'Est. Fui correndo feito um louco até o metrô, e tive a sorte de o metrô chegar em pouco tempo. Ele desceu na Gare de l'Est e eu saí voando; segundo o relógio de lá, faltavam 3 minutos pro meu trem sair. Corri, achei o trem, que era imenso, e, segundo todas as Leis de Murphy, o meu vagão tinha que ser um dos últimos. Entrei finalmente no trem e cheguei no meu vagão. Um minuto depois, as portas se fecharam e o trem partiu.

2. Trem da meia-noite da sexta-feira 13
Alguns podem pensar, porque escolher trem pra ir de Paris a Munique e não avião? Em primeiro lugar, preço não é a razão: o preço é praticamente o mesmo, o avião fica só ligeiramente mais caro por causa das taxas de emissão e de embarque. O problema mesmo eram os horários: de avião, ou eu saía na sexta à noite pra chegar tarde da noite na sexta, ficando cansado e acordando tarde no sábado, ou eu saía sábado de manhã e perdia parte do meu dia no sábado. O trem rápido é caro demais, então acabei optando pela linha noturna. Essa linha faz o trajeto de Paris a Munique em 11h29min (a distância em linha reta entre as duas cidade é de uns 680km; o trajeto de carro é de 841km e demora umas 7h39min, segundo o Google Maps. Ou seja, é quase como que ir de Cândido Mota a São Paulo de trem (na época em que isso era possível)). Essa linha noturna chega até que rápido na Alemanha, mas, lá, ela pára em cada vilarejo com mais de 5 habitantes, e fica meia hora em cada um deles. Ou foi o que me disseram, já que eu comprei passagem na caminha e não vi nada da viagem. A caminha é mó confortável: apesar de o colchão ser duro feito uma pedra (tá, nem tanto, mas bem duro), vem com um travesseiro e uma coberta, e o trem chacoalha pouco. Na ida, eu fiquei um tempo conversando com o pessoal no vagão e depois dormi, e acordei só chegando em Munique, dormi muuuuuito bem. E, bom, eu só me dei conta alguns dias antes de embarcar também que o meu trem partia numa sexta-feira 13: eu ia passar a meia-noite de uma sexta-feira 13 dormindo em um trem perdido no meio do nada entre Paris e Munique. Cena perfeita pra um filme de terror, mas a viagem foi bem, nenhuma pane o trem no meio do caminho, nada de assombrações ou coisas do tipo.

Corredor das cabines de segunda classe (onde eu fiquei, claro)

O trem em si é bem limpinho, organizado, superou as expectativas. O problema é que o trem é alemão, e eles falam tudo em alemão por lá; o pobre coitado aqui foi pedir água em francês e tive que recorrer ao inglês pra conseguir comprar a garrafa. O trem tem até primeira classe, que é bem mais chique que a segunda...

Vagão de primeira classe. As cabininhas têm até olho mágico (não sei pra quê, mas têm!)

É claro que eu só vi o vagão de primeira classe porque era logo ao lado do meu, de segunda classe, e porque era lá que tinha o carinha que vendia água; acho que, do jeito que eu estava, eu seria expulso de lá rápido. Enfim, logo após entrar no trem, a primeira coisa que fiz foi guardar minha mala na cabine, pegar uma toalha e ir ao banheiro. Não, não tinha ducha, mas, do jeito que eu estava suado de ter corrido pra não perder esse bendito trem, tive que me virar e me limpar com a água da pia mesmo; não ia ser nada confortável dormir suado daquele jeito até Munique... depois disso ainda fiquei passeando pelo trem pra ver o que tinha; entrei na cabine e tinha dois caras lá conversando, e acabei entrando na conversa: um dos caras era franco-alemão (pai francês e mãe alemã) e o outro era da Eslovênia. Aproveitei pra comer algumas das coisas que eu tinha levado, e depois fui dormir que a viagem ainda era longa...

3. A chegada em Munique


München Hauptbahnhof, a estação central de Munique

E, precisamente às 7h16 da matina, o trem parou na Hauptbahnhof de Munique, a estação central (isso porque o trem era alemão; se fosse francês, aposto que ia chegar com atraso). Pouco tempo depois o Fábio chegou pra me buscar lá, e a gente foi até o apartamento dele, que fica a cerca de uns 10min do centro de Munique. Deixei minhas malas, tomei um banho e a gente foi pro centro da cidade. O plano era ir até um castelo que tem em uma cidade próxima, mas o trem pra lá ia demorar um pouco e a gente aproveitou pra passear pela região próxima à estação antes.

Na frente de uma coisa redonda estranha que fica quase ao lado da Hauptgahnhof (pra quem não viu, eu tô no meio do treco lá!)

A gente andou pelo Alter Botanischer Garten, literalmente Antigo Jardim Botânico, um parque perto da estação. Próximo de uma das entradas desse parque, tem esse treco vermelho gigante, chamado simplesmente de "Ring". O parque estava muito bonito no outono, com um monte de folhas secas no chão.

No Alter Botanischer Garten

E de lá a gente já voltou para a estação, que já estava na hora do trem.

4. O trem para o castelo
O castelo que a gente ia visitar é o castelo de Neuschwanstein, que fica em Hohenschwangau, um distrito de Schwangau, próximo a Füssen, uma cidadezinha alemã a cinco quilômetros da fronteira com a Áustria e a uns 90km de Munique (umas duas horas de trem ou mais, já que nem tem trem direto e tem que ir até Kaufbeuren, outra cidade pequena ali por perto). O primeiro trem que a gente pegou foi pra mim algo bem típico alemão: no vagão em que a gente estava, todo mundo estava falando alto e bebendo cerveja. Até fiquei com medo de, a hora que o guardinha fosse passar verificando os bilhetes, ele reclamasse com a gente por a gente não estar bebendo! Mas, enfim, depois de dois trens e um ônibus, a gente chegou perto do castelo de Neuschwanstein.

Paisagem que se vê do trem. Nada mal, né? As montanhas ao fundo são os Alpes


5. Castelos de Hohenschwangau e Neuschwanstein
Depois de mais de duas horas de viagem, a gente chegou em Hohenschwangau, da onde já era possível ver o castelo de Neuschwanstein.

Castelo de Neuschwanstein visto de Hohenschwangau

E agora um pouco de história do castelo, ou melhor, dos castelos, já que tem dois, tem também o castelo de Hohenschwangau, que foi o primeiro a ser construído. Sua construção começou em 1833 sobre as ruínas da fortaleza de Schwanstein, uma fortaleza que já existia no século XII. O castelo de Hohenschwangau foi construído pelo rei Maximiliano II, e era usado como residência de verão; uma boa idéia, já que a região ali é mó bonita.

Castelo de Hohenschwangau

Depois da morte de Maximiliano II, o seu filho, rei Luís II, usou o castelo até construir o seu próprio, o de Neuschwanstein. Depois disso, o castelo de Hohenschwangaun ficou só para a mãe de Luís II, Maria da Prússia, até a morte dela, em 1889; o cunhado dela morou lá até 1912, e, em 1913, o castelo foi aberto ao público. Já Neuschwanstein começou a ser construído pelo rei Luís II em 1869, no alto de um morro próximo a Hohenschwangau. O castelo em si é, segundo o próprio rei Luís II em uma carta, no autêntico estilo dos antigos castelos dos cavaleiros alemães, e ele é conhecido por ter inspirado o castelo da Bela Adormecida, o famoso castelo símbolo da Disney. Grande parte das salas do castelo são inspiradas nas obras do compositor alemão Wagner, e o tema do cisne está presente em todo o castelo (Neuschwanstein quer dizer "novo cisne de pedra"; também, Hohenschwangau quer dizer "grande condado do cisne"): o ciste era o símbolo medieval dos cavaleiros da região de Schwangau. Luís II acabou ficando pouco tempo no castelo: ele se mudou para lá em 1884, e morreu em 1886, após ter sido declarado insano; dois meses depois da sua morte, o castelo foi aberto a visitas para o público, em parte para pagar o financiamento da construção, já que, na morte do rei, o castelo estava ainda inacabado.

6. Visita do castelo de Neuschwanstein
Chegando lá, fomos logo comprar o bilhete para a visita guiada do castelo. Só se pode visitar o castelo com a visita guiada, e é proibido tirar fotos do interior; além disso, a bilheteria fica no pé do morro onde está o castelo: são uns 40min de caminhada a pé para subir, ou então tem que esperar um ônibus para levar até lá em cima. Como o próximo tour em inglês ia demorar, a gente aproveitou o meio tempo para almoçar. O problema é que, depois do almoço, ficou um tanto corrido, pois já era quase a hora do tour: a gente teve que correr para pegar o ônibus e, chegando lá, correr até a entrada do castelo, já que o ônibus pára um tanto antes. Ainda assim chegamos alguns minutos antes de chamarem para o tour.

Pátio interno do castelo de Neuschwanstein

O castelo é bem bonito por dentro, mas achei o tour guiado um tanto caro, relativamente rápido e, bom, vai, deveria poder tirar fotos também! A gente passou por várias salas do castelo: a sala do trono, que não tem trono porque o rei morreu antes de construírem; a suíte principal do rei, ultra-detalhada, na cama, nas portas e nas paredes, e com uma pia com torneira em formato de cisne de bronze (ou era prata? Não lembro...); um hall imenso projetado para músicos e dramaturgos, usado em algumas apresentações atualmente, e todo decorado com motivos das obras de Wagner, dentre outras. Enfim, a visita vale a pena: o castelo é muito bonito por dentro. Além disso, ele é bem moderno: o rei Luís II era um amante de modernidades, e foi inclusive um dos primeiros a introduzir o uso de eletricidade na região da Baviera.

7. Passeando pela região do castelo
Depois da visita, como já era meio tarde pra visitar o castelo de Hohenschwangau, a gente ficou andando a pé pela região ali. É uma região montanhosa, com várias trilhas e vários pontos ótimos para fotografia.

Foto na entrada do castelo

A gente foi primeiro perto da entrada principal do castelo, onde a vista já é bem boa.

Vista panorâmica a partir do pátio na frente da entrada principal do castelo

De lá, andamos até um ponto de observação próximo, de onde dá pra se ver bem o castelo e também a paisagem em volta.

Castelo de Neuschwanstein visto do ponto de observação


A paisagem da região

De lá, andamos até um outro ponto da onde é possível ver o castelo de Hohenschwangau e a paisagem em volta dele.

Vista panorâmica da região do castelo de Hohenschwangau.

Este ponto, na verdade, fica no meio do caminho entre o castelo de Neuschwanstein e a Marienbrücke, uma ponte que tem uma das melhores vistas de Neuschwanstein.

Castelo visto da Marienbrücke.

Essa Marienbrücke já era um ponto de bela observação da paisagem conhecido do rei Maximiliano II, e Luís II reformou a ponte enquanto construía o castelo.

Foto clássica de turista na Marienbrücke

A gente ficou um tempão lá tirando fotos, até porque a vista ali é muito bonita.

A Marienbrücke até que é bem altinha, viu!

Lá da Marienbrücke, a gente viu um pessoal andando lááááá embaixo, num pequeno córrego que passa por lá, e a gente resolveu descer. E o lá embaixo é lá embaixo mesmo: a descida é uma escada de 295 degraus (sim, eu contei, mas na volta, subindo; é exatamente a mesma quantidade que a escadaria de Lozère), que termina no pé do morro sobre o qual foi construído Neuschwanstein. Tem um pequeno lago lá, alimentado por uma cachoeira que passa por baixo da Marienbrücke.

Marienbrücke. O lugar para a construção da ponte é ótimo, né?

O lugar ali é bem agradável pra se passear e tirar fotos; imagino que deva ser melhor ainda num dia de sol.

Córrego que passa atrás do castelo

De lá, a gente foi embora, o que não é uma tarefa muito fácil: a gente estava no pé do morro onde estava o castelo, e a cidade e ponto de ônibus ficavam também no pé do morro, mas do outro lado. Como o morro é meio grande e não dava pra contornar, a solução foi subir os 295 degraus e descer do outro lado. Um pouco cansativo, mas a gente fez uma pausa pra lanches no meio do caminho.

Castelo de Neuschwanstein à noite


8. De volta a Munique
Voltamos para Munique, e, depois das 2h de viagem, chegamos lá por volta das 21h. Ainda deu tempo de passear um pouco pela cidade e ver os pontos principais à noite. Por exemplo, a Neues Rathaus, a prefeitura de Munique.

Neues Rathaus à noite

Jantamos ali por perto (se é que McDonald's pode ser considerado janta) e depois fomos andar mais pela cidade. Ah, e sobre a janta: acredita que o McDonald's na Alemanha não queria aceitar o meu cartão de crédito porque eu não tinha assinado atrás na faixa pra assinar?!?!?! Eu tinha o cartão desde o começo do ano, já tinha usado na França, na Espanha, em Portugal, na Inglaterra, na Irlanda, na Escócia, na Suíça e nas Ilhas Canárias e ninguém tinha reclamado comigo de eu nunca ter assinado atrás! Tinha que ser os certinhos dos alemães mesmo pra reclamarem! Bom, mas, enfim, andamos um bocado pelo centro de Munique e também às margens do rio Isar, o rio que passa por Munique.

Rio Isar e, ao fundo, o Deutsches Museum


Calçada às margens do rio Isar

Passamos por vários lugares no centro da cidade e depois voltamos pra casa do Fábio: a gente acordaria cedo no dia seguinte pra fazer o Free Tour.

Centro de Munique à noite. Segundo o Fábio, tem mais gente nas ruas quando não chove...


9. O Free Tour

9.1. Marienplatz e Neues Rathaus
Munique, assim como várias outras cidades grandes européias, tem o Free Tour da New Europe. Já comentei algumas vezes aqui sobre esse tour, que eu já tinha feito em Dublin e em Edimburgo, e que funciona na base de gorjetas: você vai ao tour e, no final, paga quanto achar que vale. O de Munique é bem legal. Ele começa na Marienplatz, a praça em frente a prefeitura, a Neues Rathaus.

Neues Rathaus em Munique

Apesar do nome ("Neues Rathaus" é "Nova prefeitura"), o prédio tem bem cara de antigo. De fato, quando ele foi construído, entre 1867 e 1908, a idéia era que ele tivesse uma cara mais antiga que o prédio antigo da prefeitura, apesar de ser mais novo. Durante a Segunda Guerra Mundial, boa parte da cidade foi destruída, inclusive os prédios da Marienplatz, e o prédio antigo da prefeitura, mas não a Neues Rathaus. Depois da guerra, o prédio da antiga prefeitura foi reconstruído, e o prédio da nova prefeitura acabou finalmente sendo mais antigo que o prédio da antiga prefeitura, afinal a Neues Rathaus foi bem pouco destruída em comparação com os outros prédios. O tour passa um bom tempo na Marienplatz, falando também sobre a estátua de Maria em ouro que dá nome à praça e que fica bem no meio, estátua feita para comemorar o fim da ocupação sueca depois da Guerra dos 30 anos. O tour também falou sobre o Rathaus-Glockenspiel, que é uma animação na torre da prefeitura, com bonecos em tamanho real.

Rathaus-Glockenspiel

Essa animação, com bonecos em tamanho real, toca todo dia, durante uns 15 minutos, às 11h da manhã, e ela é dividida em duas histórias que se passam: um casamento e uma festa. A gente não ficou para assistir, apesar de a gente ter visto uma parte da animação enquanto passávamos por lá.

9.2. Frauenkirche
De lá, fomos até a Frauenkirche, uma igreja construída entre 1468 e 1525 que fica bem no centro de Munique.

Frauenkirche, em Munique

A igreja foi construída porque a igreja antiga que havia em Munique, de 1240, estava ficando pequena demais para o tamanho da cidade. Por causa disso, a nova igreja começou a ser construída em 1468 e, em 1479... acabou o dinheiro! Começou então uma grande campanha para financiar a construção da igreja e, segundo a lenda, quem mais contribuiu foi o diabo em pessoa. Isso porque, um belo dia, o diabo resolveu ir ver como andava a construção dessa tal de igreja em Munique. Ele deu uma passadinha por lá à noite e, olhando da porta, ele percebeu um detalhe interessante: a igreja não tinha janelas. Ora, sem janelas, a igreja ia ficar escura; igreja escura é igreja das trevas, e quem é o príncipe das trevas senão o diabo? Ele gostou dessa idéia e foi falar com o arquiteto: ele ajudaria a construir a igreja desde que nenhuma janela fosse colocada lá; senão, ele ficaria com a alma do arquiteto (alma pelo visto é a moeda padrão em todas as negociações que envolvem o diabo nas lendas). A igreja conseguiu dinheiro pra construção, terminou e aí o diabo foi lá pra ver como que tinha ficado o resultado. Quando ele entrou lá, a igreja estava completamente iluminada por dentro por diversas janelas. Óbvio que ele ficou p(*) da vida e foi falar com o arquiteto, que levou ele então pra entrada da igreja: da entrada, onde o diabo tinha ficado no primeiro dia, não dá pra ver nenhuma janela: todas elas ficam escondidas por colunas. Nenhuma janela tinha sido colocada depois daquele dia, e, nos termos do trato, o diabo tinha ajudado a construir a igreja e não ficava com a alma do arquiteto, ou seja, ele tinha sido enganado, e a igreja tinha sido terminada. Mas o diabo, p(*) da vida, que nem entrar na igreja ele podia, já que ela já tinha sido consagrada, ficou tão furioso que o pé dele derreteu o ladrilho do átrio onde ele estava pisando. O que explica isso:

Pegada do diabo na entrada da Frauenkirche

E voilà uma grande história pra explicar uma pegada misteriosa que está no átrio da igreja desde a construção, e também como é que a igreja conseguiu ser finalmente construída depois de tantos problemas de falta de dinheiro. Por dentro, a igreja é bem bonita, apesar de bem simples, mas ela é muito bem iluminada.

Interior da Frauenkirche. De fato, desse ponto, não dá pra ver nenhuma janela...


9.3. Centro de Munique e Viktualienmarkt
Depois disso, visitamos vários lugares no centro de Munique. O guia contou várias histórias, principalmente relacionadas ao nazismo e em como os alemães vêem essa parte da história deles: Munique foi onde nasceu o movimento nazista, foi a cidade onde Hitler tentou o seu primeiro golpe, em 1923, e a situação não ficou nada fácil para os judeus de lá, evidentemente. E, depois de passar na frente de algumas igrejas e museus (o pessoal do Free Tour vive dando dicas do que fazer depois do tour: quais são os melhores museus - e os dias em que eles são de graça, se for o caso; quais torres de igreja tem a melhor vista da cidade pelo menor preço, etc.), a gente parou no Viktualienmarkt, uma praça no centro de Munique onde tem diariamente, desde 1807, um mercado de comidas. Como era domingo, o mercado estava fechado, e o guia comentou que, apesar de ser um mercado a céu aberto, por ser um lugar famoso, nem sempre as coisas lá são baratas. E lá tem o mastro da cidade de Munique, todo decorado com temas da cidade e com as cores da Baviera, azul e branco.

Mastro de Munique no meio do Viktualienmarkt

Os alemães têm uma tradição com relação a esses mastros, que existem em toda cidade. A idéia é simples: se alguém rouba o mastro de uma cidade, essa cidade deve fazer uma festa para as pessoas que roubaram o mastro para que elas devolvam. Evidentemente, roubar um trequinho desses em Munique não é fácil, mas o guia falou de uma história que aconteceu no aeroporto de Munique. Lá também tem um mastro desses, mas menorzinho, e, um belo dia, ele sumiu. Os administradores do aeroporto ficaram ultra-preocupados: como é que um mastro (que, lembrando, tem um formato de míssil, o que não é nada agradável num aeroporto), some assim sem ninguém ver?!?! Chamaram os seguranças do aeroporto, claro, que, bom... disseram que tinha sido eles que tinham roubado e que eles queriam a festa deles!! Deve ser meio complicado de imaginar a cara que os caras fizeram quando ouviram isso, mas finalmente os seguranças ganharam a tal festa e devolveram o mastro pro aeroporto, que ficou agradecido (só eu vou ver uma referência ao joguinho Carmen Sandiego nesse meu último comentário riscado, né? Mas, ah, eu não podia deixar passar!) E o tour fez uma pausa (já tinha se passado 1h30 de tour...).

9.4. Hofbräuhaus
Uma das primeiras coisas que o guia falou no tour é que a resposta a boa parte das perguntas que ele faria ao longo do tour seria "cerveja", o que é bem natural, dado que o tour é em Munique, o berço da Oktoberfest. E então o primeiro lugar em que passamos depois da pausa foi em frente a Hofbräuhaus. Essa cervejaria foi fundada em 1589, mas ela só obteve o direito de vender diretamente ao público em 1828. Ao menos de fora, ela parece bem grande, com vários andares onde as pessoas podem sentar e realizar a mais antiga tradição de Munique: beber cerveja.

Hofbräuhaus, em Munique

9.5. E os últimos lugares visitados no tour
De lá, a gente foi até a Max-Joseph-Platz, uma praça onde fica o Nationaltheater.

Max-Joseph-Platz, com o Nationaltheater à esquerda

A gente ficou um booooooom tempo lá, durante o qual o guia contou várias histórias, boa parte das quais eu já esqueci, e a partir daí o tour começou a ficar bem mais focado na história do nazismo, já que, partindo da Áustria, Hitler foi pra Munique e que foi naquela região da cidade em que ele tentou um golpe em 1923.

Nationaltheater em Munique

O tal golpe que o Hitler tentou foi o que ficou conhecido como Putsch da Cervejaria, já que ele foi planejado na Burgebräukeller, uma cervejaria de Munique. O guia, que era um estadounidense estudante de história, contou toda a história de Hitler em Munique, desde que ele chegou lá, a participação dele na primeira guerra, os discursos deles que atraíam cada vez mais gente, até chegar na história do tal golpe de 1923, que terminou na Odeonsplatz, onde também terminou o nosso tour. Nessa praça, tem a Feldherrnhalle, um monumento, e a Theatinerkirche, uma igreja.

Feldherrnhalle


Turistando na frente da Theatinerkirche


10. Englischer Garten
Terminado o Free Tour, a gente foi pro Englischer Garten, o Jardim Inglês de Munique. O jardim é gigantesco e a paisagem lá no outono fica muito bonita.

Vista panorâmica de um espaço aberto no Englischer Garter


Um turista no Engischer Garten

Fomos primeiro no Monopteros, uma construção redonda em estilo grego que fica no alto de um pequeno monte de 15m de altura.

Monopteros no Englischer Garten

De lá, dá pra ver boa parte do jardim e as construções da cidade ao fundo.

Englischer Garten e as torres de Munique vistas do Monopteros. A amarela é a Theatinerkirche, e as torres logo à esquerda são as da Frauenkirche. Tem outra torre pequena à esquerda e a seguinte, que tá meio borrada na foto, é a da Neues Rathaus

De lá, a gente foi até a Torre Chinesa que tem no jardim, em volta da qual tem coisas pra comer; aproveitei pra comer um belo pretzel, tão gigante que servia muito bem como almoço!

Pretzels na Alemanha são bem grandinhos; serve como almoço......

De lá, andamos mais no parque, chegando até o lago que tem no meio, o Kleinhesseloher See.

Vista panorâmica do Kleinhesseloher See

E, depois de andarmos mais um pouco por lá, saímos do Englischer Garten.

Pequeno rio no Englischer Garten. Esse jardim é mó bonito, né não?


11. St. Peter Kirche e Frauenkirche
Voltando ao centro de Munique, fomos até a St. Peter Kirche, a igreja mais antiga de Munique. A idéia não era visitar a igreja, mas sim subir na torre, de onde é possível ter uma boa vista da cidade (por um preço razoável: era até que barato subir na torre, comparado com o preço médio de torres de igreja na Europa - depois de viajar bastante nas férias, você fica bem por dentro das cotações de preços de subidas em torres de igreja). E, bom, a vista lá de cima é boa (deve ser melhor num dia ensolarado, imagino).

Vista panorâmica a partir da torre da St. Peter Kirche, olhando pro norte. Logo na frente tem a Neues Rathaus e a Frauenkirche; no fundo, dá pra ver a Theatinerkirche e, mais pra direita, aquela coisa marrom são as árvores secas no Englischer Garten

De lá de cima, deu pra ver que, apesar de eu ter ficado só um dia em Munique, já tinha dado pra visitar boa parte das coisas interessantes ali do centro.

Viktualienmarkt visto do topo da St. Peret Kirche, com o mastro de Munique bem no meio da praça


O Englischer Garten é grandinho mesmo, né?

Claro que foram centenas de fotos lá em cima - como eu já devo ter dito em algum desses posts sobre viagens, turista adora torre: se você colocar três degraus, falar que a vista do topo dos três é uma maravilha e cobrar 1€ pra entrar, vai ter até fila pra subir, certeza!

Turista paga pra subir em tudo quanto é torre, né? É incrível... mas até que as fotos em cima de torres ficam boas, vai... tipo essa, na frente da Frauenkirche

Saindo de lá, fomos para a Frauenkirche (durante o tour, a gente só tinha passado lá na frente e o guia tinha contado a história da construção, mas a gente não tinha entrado: era domingo de manhã, horário de missa...), pra ver a igreja por dentro (de fato não dá pra ver as janelas) e a famosa pegada do diabo.

12. Schloss Nymphenburg
Fomos então para o Schloss Nymphenburg, que fica um pouco longe do centro de Munique. Esse palácio foi construído no século XVII e foi sendo aumentado ao longo do século XVIII. Ele é gigantesco e, atrás dele, há jardins enormes. A gente chegou lá bem tardinho já, então não deu pra entrar no castelo, mas ainda assim deu pra ver um pouco dos jardins.

Vista da fachada do Schloss Nymphenburg

O palácio impressiona pelo tamanho: ele é simplesmente gigante! (Uma estimativa grosseira usando o Google Maps e o Paint deu o valor de 630m pro comprimento do palácio!)

Foto panorâmica do palácio de Nymphenburg. Grandinho, né?

Já que não ia dar pra visitar mesmo, aproveitei pra ficar tirando fotos (pra fazer essa panorâmica, por exemplo) lá na frente.

Turistas adoram tirar fotos na frente de qualquer prédio bonitinho que vêem, né?


Outra vista panorâmica do palácio, dessa vez mais de perto

A gente foi pros jardins, mas, como eles fechariam logo, a gente não deve muito tempo pra passear por lá.

Vista dos jardins de Nymphenburg (pessoas borradas e sombras de pessoas são devido ao fato de eu ter tirado fotos de longa exposição e ter juntado três fotos no computador pra fazer uma panorâmica. Desculpem a minha preguiça de corrigir os erros...)


Palácio de Nymphenburg visto dos jardins. Sim, já tava bem noitinha a essa hora...

Como os jardins iam fechar, a gente saiu. Sei lá, a idéia do palácio me lembrou muito Versalhes: um palácio gigante e um jardim colossal no fundo, com a diferença que o palácio de Nymphenburg parece maior que o de Versalhes, mas os jardins de Versalhes parecem maior. Deve valer a pena visitar os jardins de Nympehnburg de dia e em um dia mais bonito!

Palácio de Nymphenburg à noite


13. Loja da BMW
O Fábio me levou até a loja da BMW pra gente comprar uns carros porque ele falou que tinha algumas coisas interessantes lá. De fato, a loja da BMW lá tem duas partes, o BMW Welt (Mundo BMW) e o BMW Museum (Museu da BMW). A gente foi só no BMW Welt, que tem, além dos carros em exposição, várias coisas sobre ciência e engenharia em geral: alguns experimentos de eletromagnetismo, alguns painéis interativos, o treco parece mesmo um mini-museu da ciência.

BMW Welt, em Munique


E, do outro lado da rua, o BMW Museum

E, como o povo que trabalha na BMW deve ser bem nerd, não podia faltar algo bem nerd por lá:

BMW de Lego. Pior que, do jeito que anda o preço do Lego, uma BMW normal deve ser mais barata...


14. Allianz Arena
Fomos então para o Allianz Arena, um estádio de futebol em Munique, construído em 2005, sede dos clubes TSV 1860 Munique e Bayern de Munique. O estádio sediu a abertura da Copa de 2006, e o Brasil já jogou lá, durante a copa, contra a Austrália. Como já era noite, a gente só viu o estádio por fora. Ele fica muito iluminado à noite, o efeito é bem bonito.

Estádio Allianz Arena à noite. Dá pra entender porque o apelido dele é "pneu", né?

E, enquanto a gente estava lá indo pra mais perto do estádio...

Epa! Ele não era vermelho?!?!

Sim, o estádio muda de cor! Ele fica vermelho nos jogos do Bayern de Munique, azul nos jogos do TSV 1860 Munique, branco nos jogos da seleção alemã e pode ficar com mais de uma cor, por exemplo em jogos do campeonato europeu (a propósito, a escolha das cores, azul, branco e vermelho, ficou bem francesa, não?). Agora, por que ele mudou de cor no meio da noite em dia que não tem jogo, isso eu já não entendi, mas foi legal que eu tirei fotos dele vermelho e azul! c[= A gente chegou até lá perto, tiramos fotos, mas, como era tarde, já estava tudo fechado.

Foto na frente do estádio


15. Últimas horas em Munique
Voltamos pro centro de Munique pra andar um pouco por lá, andamos um pouco no centro, mas, como já eram 20h, meu trem saía às 22h44 e o Fábio tinha falado de a gente jantar lá no prédio dele, a gente logo voltou pra lá. Jantamos, tomei um banho e arrumei as minhas coisas pra voltar pra França.

16. Voltando pra Paris
Não foi só na ida que eu tive uma odisséia para pegar o trem. Para voltar, o Fábio falou que eu podia sair ali da casa dele uma meia hora antes do horário de partida do trem: eu ia chegar na estação uns 15min antes e ainda ter tempo tranqüilo até achar o trem. O grande problema foi que, chegando no ponto de bonde, o próximo passaria só em 20min, ou seja, eu só conseguiria chegar na estação uns 5min depois do horário de partida do meu trem. A gente correu até o próximo quarteirão, pra ver se tinha algum outro bonde que iria pra estação, mas nada. Era impossível de ir a pé, e a gente estava sem saber o que fazer, até que o Fábio viu um táxi. A gente correu até lá, e acabei indo de táxi até a estação. Cheguei a tempo - uns 10min antes, até - mas o problema era que o trem de volta era um único trem gigante que se dividia no meio do caminho: uma parte do trem ia pra Amsterdã, outra pra Stuttgart e outra pra Paris, e o povo gente boa só estava anunciando no painel os destinos de Amsterdã e Stuttgart, e eu tive que pedir informações pra conseguir descobrir que uma parte daquele trem ia pra Paris - sorte que o povo lá da estação falava inglês! Peguei o trem e ele ainda atrasou uns 15min pra partir. Tirando os problemas pra pegar o trem, a viagem de volta foi tranqüila, dormi o tempo todo, e na segunda de manhã mesmo eu já estava de volta na Polytechnique.

Depois de 10h46min de viagem, finalmente, Paris Gare de l'Est


E assim acabou a penúltima viagem pra fora da França que eu fiz em 2009. A próxima era a pro Brasil, nas férias, que chegavam =D

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