




... e meu quarto na Polytechnique no dia 04/04/2011, logo antes de entregar a chave...
Muda um pouco a cara do quarto quando não tem nada dentro, né?
Fazer mudança dá trabalho: organizar todas as coisas, empacotar, transportar, e, depois, chegando, reorganizar tudo, decidir como dispor os móveis, como organizar as coisas. No fim das contas, a cara do meu quarto em Vincennes mudou um bocado...



... e meu quarto em Vincennes na segunda-feira, 04/04/2011...
Além de eu ter mudado completamente a disposição dos móveis, até que as bandeiras dão uma bela cor pro apartamento, né?
Enfim, o post foi só pra mostrar as fotos comparando o antes e o depois dos dois apartamentos! =D Acho divertido fazer mudança, mas só depois que já tá tudo mudado, porque dá um trabaaaaaaalho...!!
22 comentários:
Boa noite,
Sabe qual é o ponto ?
Para se estudar (direito, aproveitar mesmo) na Escola Politécnica de Paris, é necessário conhecer matemática de verdade, e não apenas os cursos ridículos que ensinam nos dois primeiros anos das nossas universidades: Calc I-IV, vetores & geometria, e Algelin I.
O seu caso é o mesmo de tantos outros que são aprovados para participar desse programa de diploma duplo, mas quando chegam lá, percebem que em termos de formação, estão na idade das cavernas, e sofrem, sofrem, sooofrem para poder acompanhar o curso. Pois precisam de alguma maneira, compensar as gigantescas falhas de formação que trouxeram do Brasil.
Esse é o motivo de encarar dois anos nessa grande Escola como algo chato e ficarem quase doidos de tanto estudar.
Concordo que a falta de uma boa base matemática atrapalha um pouco a vida na Polytechnique, mas não pode ser visto como o único fator que dificulta as coisas por lá, e acho que não é sequer o mais importante.
Há as dificuldades de adaptação com o sistema de ensino francês, que é bem diferente do brasileiro: a idéia de se ter aulas em anfiteatros com 500 alunos e aulas específicas à tarde de exercícios, apenas uma aula de cada matéria por semana, tudo isso é algo diferente do que se faz no Brasil e é uma questão de adaptação. O estilo das aulas é bem diferente, você tem que aprender a estudar de um jeito diferente para conseguir aprender o que é dado em aula. Pode não parecer, mas garanto que não é tão evidente de se adaptar a este ritmo.
E acho que os alunos não ficam doidos só de tanto estudar... há também o fato de a escola ser no alto de um planalto, isolada de qualquer cidade, de qualquer "vida normal". No começo, você sai sempre para Paris, você acha bom morar tão perto da sala de aula, mas, depois de dois anos, cansa ficar a semana inteira no campus, vendo sempre as mesmas pessoas, sempre a mesma realidade do dia-a-dia de uma escola militar de engenharia.
A realidade é um pouco mais complexa que só falar que falta bagagem matemática. E também de falar em encarar os dois anos da Polytechnique como algo chato. Não achei meus dois anos lá chatos. Tive bons momentos, aproveitei o que queria aproveitar, saio satisfeito de ter vindo. Mas só acho que esses dois anos não vão entrar para a lista de melhores anos da minha vida, e que eles poderiam ter sido de certa forma melhores. E não fiquei mais doido do que eu já era antes de vir pra cá, isso eu garanto! =D
Guilherme, afinal, pra onde vc foi? Pelo que entendi, vc terminou o curso na Polytechnique e mudou para outra cidade, aí na França. Mas então, o que vc faz/fará da vida nesse ano?
desculpe as perguntas, mas sou um leitor muito curioso, ainda mais quando o autor lota um quarto clean com bandeiras de toda a UE e mais um pouco rsrs!!!
Até mais!
Acabaram minhas aulas na Polytechnique, mas ainda tenho que fazer um estágio. Me mudei da Polytechnique porque a turma nova, que chega em breve, ocupará os quartos que a minha turma ocupava. Meu estágio vai ser na própria Polytechnique, mas tenho que ir pra lá só uma vez por semana, então me mudei um pouco para longe, para Vincennes, uma cidade logo ao lado de Paris e a 1h de trem da Polytechnique. E agora o que faço da vida é o estágio, que começou essa semana e vai até o final de junho. Depois disso, bom, ainda tenho que decidir o que fazer da vida depois...
Acredito que o gap de formação pesa muito, mas muito mesmo.
Eu já imaginei sobre como deve se sentir um estudante que chega com o conhecimento de vetores & geometria, e logo no começo dos estudos, precisa pagar a cadeira de Análise e Álgebra com o Colmez.
O aluno francês foi devidamente treinado nas classes preparatórias para poder enfrentar essa realidade, enquanto o brasileiro, não. Alguém no Brasil avisou vocês sobre o que iriam enfrentar na Escola Politécnica ? Eu acho que não. Eu não leio apenas os posts dos seu blog, leio de outros também (de brasileiros, que estudam na Escola Politécnica), e o quadro é sempre o mesmo: dois anos que deveriam ser um marco intelectual na vida da pessoa, são descritos como uma viagem de sofrimentos, na qual todos anseiam pelo fim.
O gap na formação pesa, mas nem tanto assim, eu diria.
Em primeiro lugar, quem é selecionado não tem só formação de vetores e geometria: em geral são alunos que já tiveram algum contato a mais com a matemática, que já fizeram uma iniciação científica, que estão mais à vontade com a matemática, mesmo que muito freqüentemente não tenham o nível necessário. Eu mesmo fiz dois anos de iniciação científica em matemática antes de vir que reduziram muito o meu gap. Fiquei perdido principalmente em álgebra, mas o que mais me atrapalhou no começo foi o sistema de ensino diferente do Brasil, e não tanto a diferença de formação.
A propósito, os problemas do curso com o Colmez não são exclusivos de brasileiros ou de estrangeiros. A ponto de o meu ano não ter tido prova do Colmez porque todos os alunos iam muito mal nos anos anteriores. A turma seguinte teve curso facultativo do Colmez: alguns escolheram fazê-lo, mas a maioria fez um outro curso mais "leve" de matemática. E, finalmente, não há mais curso do Colmez no tronco comum.
Ninguém avisa como vai ser a Polytechnique antes de a gente chegar, mas devo admitir que seria difícil de descrever a Polytechnique para alguém completamente de fora, que imagina uma universidade normal e não uma Grande École francesa com uma tradição militar (questionável, na minha opinião).
Meus dois anos não foram uma viagem de sofrimentos. Se eu anseei pelo fim, não foi nem um pouco por causa dos cursos científicos: eu poderia muito bem continuar fazendo-os (e por isso mesmo me candidatei para o mestrado da Polytechnique, só acho que não vou fazer agora porque pretendo terminar a USP antes, mas não vejo a hora de voltar e continuar a estudar aqui na França), é simplesmente o estilo de vida que enche muito depois de dois anos. Eu estava de saco cheio das festas dos polytechniciens, do dia-a-dia polytechnicien, dos militares, de ver sempre aqueles mesmos alunos com aquela mesma mentalidade, de não ver gente diferente. As aulas têm lá suas dificuldades, mas garanto pra você: o principal motivo de eu querer sair de lá não eram as aulas, era a vida no dia-a-dia. As aulas, eu continuaria, se fosse em outro lugar, se o campus não fosse isolado do resto do mundo, se não tivesse tantos militares criando coisas para atrapalhar a vida, e, principalmente, se o tempo necessário de estudo fosse mais adaptado (uma crítica que já ouvi inclusive de professores de matemática da Polytechnique, que reclamam que o tempo é muito curto para desenvolver a teoria como deveria).
Não acho que os alunos brasileiros estejam sub-preparados para enfrentar a Polytechnique. Se a gente é selecionado, é porque os examinadores acreditam que a gente tenha a capacidade de correr atrás das diferenças e seguir o curso, mesmo que, no momento da seleção, a gente não tenha o nível de matemática dos franceses.
E, só para concluir, acho que esses dois anos foram sim um marco intelectual na minha vida. Aprendi a pensar de forma diferente sobre diversos problemas, minha intuição matemática se desenvolveu muito e, quando olho para trás, vejo que aprendi muita coisa nova e muita coisa interessante que eu não teria aprendido se continuasse no Brasil. Como já disse, minha experiência na Polytechnique valeu a pena, e principalmente do ponto de vista dos estudos.
Tá bom, os que são selecionados, é porque os examinadores concluíram que são aqueles que podem correr atrás da diferença.
E hoje, você é um dos que terminaram os estudos na Escola Politécnica.
Você se importa se eu fizer duas perguntas ?
Se você responder (sem consultar nada), eu retiro tudo que disse.
1) Calcule a seguinte integral
[; \int_{\mathbb{R}^n} e^{-\langle A(x),x\rangle} dx^1...dx^n;]
Onde A é um operador linear auto-adjunto, e positivo em [;\mathbb{R}^n;]
2) A igualdade abaixo é verdadeira ?
[; U(\mathbb{D}[x]) = U(\mathbb{D}) = \mathbb{D}^{*};]
Onde D é um anel de divisão, e U é o grupo dos elementos invertíveis de um anel com unidade.
Bom, aceito as duas perguntas aí, vamos às minhas soluções. Mas, bom, são quase 3h da matina aqui, meu cérebro não necessariamente tá funcionando direito agora...
1) Como $A$ é auto-adjunto e positivo, existe uma base ortonormal $(f_i)$ de $\mathbb R^n$ em que $A$ é diagonal; sejam $(\lambda_i)$ os autovalores correspondentes aos autovetores $(f_i)$. Notando por $(e_i)$ a base canônica do $\mathbb R^n$, um vetor $x$ pode se escrever em componentes como $x = \sum_i x_i e_i = \sum_i \xi_i f_i$, e $\xi_i$ e $x_i$ estão relacionados um ao outro pela matriz de mudança de base $M$ de $e_i$ a $f_i$. Como $f_i$ é ortonormal, essa matriz de mudança de base é uma rotação do espaço (possivelmente composta com uma simetria com relação a um hiperplano passando pela origem), então $det M = \pm 1$. Basta então considerar a mudança de variáveis linear definida pela matriz $M$ para escrever a integral dada como
\[\int_{\mathbb R^n} e^{-\sum_i \lambda_i \xi_i^2} d\xi,\]
e, bom, como $\lambda_i > 0$ pra todo $i$ (espero que essa hipótese de positividade seja na verdade positiva definida, senão a integral diverge em caso de autovalor nulo), isso daí dá a integral de $n$ gaussianas. Como $\int_{\mathbb R} e^{-a x^2} dx = \sqrt{\pi/a}$ pra $a>0$ , a integral lá vai dar $\sqrt{\frac{\pi^n}{\prod_i \lambda_i}}$.
2) Nunca tinha estudado álgebra no Brasil, e tudo o que estudei na Polytechnique foi um curso de Teoria de Galois (optativo), no qual tive que estudar os pré-requisitos de álgebra por conta, então não sou lá muito familiarizado com a teoria. Admito que não lembrava o que era um anel de divisão e tive que dar uma olhada rápida na minha apostila, mas foi só ver a definição para lembrar. Depois de lembrar, a questão pareceu fácil e clássica: $U(D) = D\setminus \{0\}$ e, se $P \in D[x]$ é inversível, então existe $Q \in D[x]$ tal que $PQ = 1$, mas, nesse caso, como $D$ é anel de divisão, ele não admite divisores de zero, e aí o grau de $PQ$ é a soma do grau de $P$ com o de $Q$. Como o grau da constante $1$ é $0$, $P$ e $Q$ são de grau $0$, ou seja, são constantes, são elementos de $D$. Assim $P$ é um elemento inversível de $D$, ou seja, $U(D[x]) \subset U(D)$, e a inclusão inversa é trivial. E, bom, pra essa demonstração ser válida, é suficiente que D seja um anel com unidade e sem divisores de zero, não precisa da hipótese de ser um anel de divisão.
Agora, não entendo muito como isso vai ajudar a definir o quanto os alunos brasileiros sofrem por causa da matemática aqui. Eu escolhi um aprofundamento em matemática, estou fazendo estágio de pesquisa em matemática agora e pretendo partir pro mestrado em matemática, um caso que está longe de ser o caso mais comum aqui. Também, é uma minoria que escolhe aprofundamento em matemática, boa parte do pessoal parte pra outras áreas. E acho que, nas outras áreas, a diferença de bagagem dos brasileiros e dos estrangeiros em geral com relação aos franceses, e é mais fácil de correr atrás das diferenças em matemática nesses casos (acho que a única área em que você usaria álgebra, por exemplo, é partindo pra um aprofundamento em matemática, e, ao menos para mim, álgebra foi a parte mais difícil de correr atrás).
Bom, o sono está pesando demais aqui, vou é dormir. Té.
Sim, são duas questões muito simples; e você levou duas horas para responder. Mas eu sempre cumpro com a minha palavra, e retiro o que disse nos outros posts.
E você levou uma hora (e dois minutos) para ler a minha solução...
o anônimo bem que poderia dar o prazer da identificação. E perder o foco com 2 exercícios, bem....
... então Guilherme, vc reclamou do militarismo e dos milicos, poderia ser um pouco mais específico? Eles são burocratas, pelo que entendi, correto?
ademais, valeu pela resposta. Deus abençoe seus planos.
Então, a minha questão com relação aos militares é que não dá pra se ver muito bem qual o papel deles na escola. O DFHM, Departamento de Formação Humana e Militar, é responsável pela organização de algumas palestras na escola que, em geral, são sem interesse e, se há até que uma boa presença dos alunos, ela é em geral devido ao fato de as palestras serem obrigatórias e de você ganhar uma bela encheção de saco dos militares se você não for, que vão pegar no pé, não insistindo que você vá por causa da importância da palestra, mas insistindo usando a mentalidade militar: você tem que ir porque é obrigatório e são ordens do seu superior e você não pode questionar.
Além dessas palestras, os militares também são encarregados das aulas de esporte na escola, mas não vejo nenhum problema nisso (além da freqüência às vezes elevada da aula de esporte: 3 vezes por semana pode ser cansativo, ainda mais quando você tem aulas em horários ruins, tipo 8h da manhã ou então logo depois do almoço).
E os militares também são responsáveis pela "tradição militar" da escola: participar de desfiles, de eventos, etc. Aí, quando você acha que vai ter uma semana mais tranqüila com mais tempo para estudar e descansar, aparece algum desfile de que você tem que participar e aí você tem que passar tempo ensaiando, treinando a marchar. Para quem gosta, pode até ser interessante, mas não é meu caso...
A impressão que tenho é que tudo o que foi organizado pelos militares na escola foram coisas sem interesse, que não melhoraram em absolutamente nada a minha formação, que, quando eu fiz, foi por simples obrigação, e que eu simplesmente poderia ter aproveitado esse tempo fazendo outras coisas.
Não vejo ao certo as vantagens de a escola ser militar para nenhum dos lados: para o lado dos militares, são poucos alunos ali que acabam segunido carreira no exército depois, não sei se vale a pena dar uma formação militar para 500 alunos, 400 franceses e 100 estrangeiros, para que no final uns 10 acabem seguindo carreira no exército. E, para a escola, a única vantagem que vejo é que o Ministério da Defesa tem mais dinheiro que o Ministério da Educação, já que o foco das aulas na escola é principalmente científico e não está ligado a interesses militares.
Acho que o único motivo pelo qual a escola é militar é para manter a "tradição" militar. Mas o problema é que, com isso, a tradição científica se perde um pouco: a escola ainda tenta guardar as tradições militares que tinha no começo do século XIX, mas as tradições científicas foram se perdendo aos poucos ao longo dos séculos, e isso é uma crítica feita mesmo por alguns professores da escola (o professor Colmez, que foi citado alguns comentários acima, ao sair da escola, entregou uma carta de demissão criticando um bocado o método de como os estudos são geridos na Polytechnique atualmente).
Acho que a Polytechnique está passando por uma grande mudança: em 1970, ela saiu de Paris para se instalar na sua localização atual, o plateau de Saclay, e, nisso, acredito que ela teve que deixar de lado um pouco do militarismo, já que, longe de Paris, isolados do resto do mundo, alunos que desejam um ensino científico e vivem uma vida bem militar não agüentariam muito (e, pelo que ouvi falar, teve comentários de alunos entrando em depressão na época). Mas a maior mudança veio em 2000, quando a escola percebeu que ela era reconhecida como a melhor escola científica na França e que não tinha reconhecimento nenhum no exterior. Ela começou a se abrir ao exterior, e os vários alunos que aqui chegam ficam meio confusos com o fato de a escola ser militar. A abertura da escola ao exterior colocou tantos ou mais alunos civis que militares no campus (se for contar os estrangeiros do programa normal e os alunos de mestrado e doutorado; não sei os números exatos, mas acredito que seja da mesma ordem). E novas transformações virão: outras grandes escolas francesas vão se instalar ao lado da Polytechnique e, nesse novo contexto, com diversas escolas civis logo ao lado, acho que ainda vai ser mais difícil justificar o militarismo na Polytechnique. Por esses motivos, acredito que, a médio prazo, a Polytechnique deve tender a se desmilitarizar, mas outras transformações podem acontecer nesse meio tempo que mudem isso...
Agora, depois desse longo ponto de vista sobre o militarismo na escola, peço só uma coisa: não leve isso tudo 100% a sério e não acredite 100% nos meus argumentos. Eu acabei de sair da escola, boa parte do meu pensamento é baseado numa experiência que eu vivi num passado muito recente e que eu ainda não tive tempo nem distância o suficiente para refletir. Se você quiser uma opinião bem mais razoável e bem mais ponderada sobre o que penso do militarismo na Polytechnique, sugiro que me pergunte em uns 6 meses ou 1 ano, até lá acho que terei mais condições de analisar com um melhor distanciamento a minha experiência e formar uma opinião mais racional.
Depois de todos esses comentários nerds, eu só tenho uma pergunta: por acaso você sobe na balança quando faz xixi pra ver quanto peso está perdendo?
Hahaha, beijos da melhor professora de francês do mundo (você sabe quem, né, Guillaume?)!
:)
obrigado pela resposta, Guilherme! Era justamente o que suspeitava, parece um pouco os colégios militares daqui (ou quem sabe, os institutos militares).
até mais.
Huahauhauahauhauha... é, depois que eu tirei a foto eu percebi que a balança tinha ficado num lugar bizarro!! Normalmente ele não fica ali não c[=
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