terça-feira, 10 de maio de 2011

Capitães da Areia

Quando comecei a minha mudança para Vincennes no final de março, logo percebi que eu ia ter que fazer algumas vezes de trem o caminho Polytechnique - Vincennes, que demora cerca de uma hora. Resolvi assim, pela primeira vez, mudar meus hábitos de leitura e comecei a ler um livro no trem. Achei que fosse ser meio ruim e desconfortável de ler, mas descobri que, quando a leitura é boa, até um trem lotado da RATP é confortável!

E o livro que escolhi para ler foi Capitães da Areia, do Jorge Amado, um livro que eu comprara há quase dois anos em Portugal e ainda não lera. Publicado em 1937, foi (segundo conta a contracapa do livro) proibido pelo Estado Novo e teve a sua primeira edião apreendida e queimada em praça pública, o que não impediu o enorme sucesso a partir da nova edição de 1944. É um romance que conta a história de um bando de garotos de rua, os chamados Capitães da Areia, que têm sua sede às beiras de uma praia em Salvador e garantem sua sobrevivência pelo crime.


Capitães da Areia, edição de 2009 da editora portuguesa Leya Bis

O autor começa apresentando uma série de artigos de jornal sobre o grupo de meninos de rua conhecido como Capitães da Areia e os furtos realizados por eles, intrigas políticas entre a polícia e o juizado de menores, denúnicias de maus-tratos no reformatório de menores e a resposta do diretor do reformatório. Assim, com uma sutil ironia (por vezes nem tão sutil, ou mesmo nem um pouco sutil), Jorge Amado apresenta um primeiro ponto de vista sobre a história que ele contará nas páginas seguintes: o da aristocracia da cidade de Salvador e da mídia nem um pouco imparcial da cidade, que vêem os menores de rua dos Capitães da Areia como simples criminosos, um problema, ignorando qualquer possível questionamento da condição dos garotos e o que os levou àquilo. Neste ponto de vista, qualquer voz divergente é rudemente abafada, numa descrição por vezes caricatural da aristocracia baiana.

Após estes artigos de jornal, começa a narrativa das histórias dos Capitães da Areia. Jorge Amado apresenta várias histórias, mostrando aos poucos quem são os personagens, como eles vivem e como eles sobrevivem de crimes. Ele vai construindo, pouco a pouco, a personalidade de cada um dos prinicipais membros dos Capitães da Areia: Pedro Bala, o chefe, filho de um sindicalista morto em uma greve, uma espécie de inteligência para as grandes ações do grupo e um líder que os outros garotos estão sempre atentos para ouvir; Sem-Pernas, um garoto coxo cuja habilidade é de se infiltrar em casas de família como um pobre órfão e em seguida guiar o grupo para roubar todos os objetos de valor da casa; Volta Seca, afilhado de Lampião, que, apesar de morar na cidade, tem por sonho ser cangaceiro; Professor, que ganhou este apelido pelo seu hábito de ler livros e contar histórias para o grupo, e que tem um dom para a pintura; Pirulito, que, apesar de pertencer aos Capitães da Areia, era fortemente cristão e sonhava em virar padre; dentre vários outros membros do grupo. O leitor também fica conhecendo outros personagens ligados aos capitães, como o Padre José Pedro, que conseguiu conquistar a confiança dos meninos e tenta melhorar a vida deles, e Don'Aninha, mãe de santo amiga do grupo.

E o livro se estrutura em uma série de contos que vão construindo os personagens, ao mesmo tempo em que o autor faz uma análise da sociedade baiana, dos motivos que levam os garotos ao crime e da incrível diferença social entre os pobres e a aristocracia da cidade de Salvador. O que gostei muito no livro é a ironia de Jorge Amado, quase uma constante no livro, por vezes cômica, se escondendo às vezes em pontos de vista ingênuos e sinceros, ironia esta que propõe uma certa reflexão sobre as formas de ver o mundo dos Capitães da Areia e da aristocracia baiana. Ele dá um retrato muito bem construído deste grupo, que só faz aumentar o interesse pela leitura ao longo do livro.

Adorei o estilo de escrita de Jorge Amado e pretendo ler mais livros dele. Capitães da Areia consegue cativar o leitor do começo ao fim, retratando a vida de meninos abandonados que, tão jovens, já se comportam como homens adultos em seus crimes para ter alguma chance de sobrevivência. Leitura recomendada!

3 comentários:

joão disse...

eu também já li esse livro e mais um do Jorge Amado: Terras do Sem Fim (algo assim, não lembro corretamente). Este se passa na sociedade cacaueira, de Ilhéus. Foi o primeiro livro dele que eu li, fica a minha recomendação.

abraço.

Besun disse...

Capitães de Areia é realmente excelente, nos prende na leitura!

Gui disse...

Valeu pela recomendação, tô querendo ler mais do Jorge Amado! Só vai demorar um pouco, que a lista de livros que eu comprei e ainda não li tá longa, mas um dia eu acabo ela! hahahahaahah